Saúde digital exige compromisso com o SUS e respeito à construção pública
Nós, pesquisadoras e pesquisadores signatários desta carta, manifestamos nossa preocupação e indignação com a forma simplista, desonesta e enganosa pela qual a saúde digital foi apresentada por Flávio Bolsonaro na entrevista à TV Globo e no debate da Band neste segundo turno.
O candidato afirmou que vai criar um sistema de prontuários identificados pelo CPF, com um sistema de atendimento remoto de telemedicina, com dados integrados e processados mediante inteligência artificial. Devemos de pronto informar ao candidato e à população brasileira que essas propostas, apresentadas de modo vago como se fossem novidade, já existem e compõem o Programa SUS Digital. Vários componentes desse programa foram implementados, outros estão em processo e alguns desdobramentos estão sendo planejados e testados.
No governo Lula, a agenda da transformação digital na saúde ganhou prioridade e potência com a criação da Secretaria de Informação e Saúde Digital e a instituição do Programa SUS Digital. Componentes desse programa, a Rede Nacional de Dados em Saúde, o aplicativo Meu SUS Digital e as ações de telessaúde integram uma estrutura que vem sendo desenvolvida e aperfeiçoada. A rede já incorpora bilhões de registros, o aplicativo já está ativo em milhões de usuários, núcleos de telessaúde já estão em operação, sistemas de IA já viabilizam filas de transplante e sistemas de regulação para atenção especializada. Essas iniciativas e o trabalho de quem as realiza precisam ter reconhecimento e ampla visibilidade no debate público.
Reconhecer tais avanços não significa ignorar dificuldades e desafios. A integração dos serviços está em curso, mas permanece incompleta; seus benefícios ainda precisam alcançar mais amplamente a população de maneira equitativa. Prontuários integrados, telessaúde e inteligência artificial são instrumentos cruciais para melhorar o cuidado à saúde da população. Por sua importância, consideramos inaceitável apresentá-los à população desconhecendo a construção pública que já sustenta essa agenda no Brasil, construída coletivamente por instituições públicas, universidades, centros de pesquisa, gestores, profissionais e trabalhadores do SUS. É precisamente por isso que a discussão exige seriedade e conhecimento técnico da complexidade dessa problemática.
Interoperabilidade não se resolve meramente vinculando informações ao CPF. É preciso fazer com que diferentes sistemas troquem dados e os interpretem corretamente, com qualidade, segurança e utilidade para o cuidado. Isso envolve padrões compartilhados, infraestrutura, responsabilidades institucionais e mudanças nos processos de trabalho. Anunciar um prontuário único sem explicar como enfrentar esses desafios oferece uma resposta simplista e, portanto, falsa a um problema complexo.
Oferecer atendimento pelo celular exige enfrentar desigualdades de acesso. Um aparelho compartilhado, com pouca memória, uma conexão instável ou um pacote de dados insuficiente podem inviabilizar o uso dos serviços. Também é necessário considerar a privacidade que uma consulta médica deve garantir. O acesso à saúde não pode depender simplesmente da capacidade de cada pessoa de comprar um dispositivo adequado, manter uma conexão ou operar um aplicativo.
Segurança e soberania são condições fundamentais dessa política. A população precisa saber quem poderá acessar suas informações, para quais finalidades e sob quais controles. O poder público deve ter capacidade de fiscalizar fornecedores, prevenir usos indevidos e garantir a continuidade dos serviços. Dados de saúde exigem uma governança orientada pelo interesse público, com proteção contra sua exploração comercial indevida e contra dependências tecnológicas que limitem a autonomia do SUS.
Educação digital é parte do cuidado. Usuários precisam de orientação e apoio para utilizar os serviços e compreender seus direitos. Profissionais e prestadores de serviços precisam de formação permanente, suporte técnico e condições de trabalho para incorporar essas ferramentas com responsabilidade. A implantação de sistemas de saúde digital deve ser acompanhada de investimento nas pessoas que os utilizam.
Inteligência artificial não é panacéia nem seu emprego pode substituir a competência profissional. Seu imenso potencial precisa ser acompanhado de avaliação, supervisão humana e mecanismos de responsabilização. Automatizar um encaminhamento não cria, por si só, uma vaga, uma equipe ou a capacidade de realizar um tratamento. Reduzir filas exige financiamento, organização da rede, critérios clínicos e articulação entre os serviços.
Chama atenção a escolha de um hospital privado como referência para a transformação do SUS, associada ao anúncio de um nome do seu quadro dirigente para o Ministério da Saúde. Experiências de qualidade podem contribuir para o debate, mas a transferência de um modelo privado de negócios para um sistema público e universal é suspeita e exige explicações. O SUS tem responsabilidades territoriais, sanitárias e sociais que ultrapassam a gestão de uma instituição hospitalar elitizada. A missão do SUS é cuidar de toda a população e essa responsabilidade não pode ser terceirizada. O SUS é o maior sistema público de acesso universal do mundo, constitui um patrimônio da população brasileira, por isso não pode ser privatizado.
A apresentação de Flávio Bolsonaro deixa sem resposta aspectos essenciais da política que promete realizar e dá pouca visibilidade às iniciativas públicas já existentes. Nossa indignação nasce do contraste entre a complexidade desse trabalho de construção científico-tecnológica que exige competência e dedicação e a facilidade enganosa e desonesta com que suas soluções são anunciadas. Esse modo de tratar a saúde digital empobrece o debate e desconsidera o esforço de quem trabalha diuturnamente para torná-la parte efetiva do cuidado com equidade.
Por tudo isso, defendemos o avanço da saúde digital com investimento público, participação social, inclusão, segurança, soberania e formação. Defendemos que toda proposta seja apresentada com metas, recursos, prazos e responsabilidades claros, reconhecendo o que foi construído e enfrentando o que ainda precisa melhorar.
A sociedade brasileira merece compromissos reais com resultados concretos: atendimento oportuno, continuidade do cuidado, redução das desigualdades e respeito aos direitos de cada pessoa. É a esse compromisso que a inovação tecnológica deve servir. É esse o SUS que defendemos.
Coletivo de Saúde Digital (ISC/UFBA) – 20/10/2026, Salvador-BA